quinta-feira, 12 de abril de 2012

Temporários e Ases


E tem uma solidão - das brabas
que não acontece nem por estar-se sozinho.
É por sentir-se abandonado por uma espelho,
Por uma tripa de recheio
Por um miolo de pão mal tostado.


Não necessariamente solidão.
Não dão, não dá
Ou dão tudo que dá
e a própria alma não dá. Ou não encontra.

Só busca, rodopia, pia sem cantar
Plana sem voar
E simplesmente - desmaia na praia.
Não morre, porque levanta e nada contra a maré novamente.

O tempo, por exemplo.
Os segundos, milésimos
Os fragmentos sólidos de um ar que não se indefine por completo
Circundam, dançam, espatifam-se contra nós, patifes
E caçoam. Caçoam da melodia, dos odes, das epopéias
dos a favor, dos contra, e dos condizentes com seus passos mirabolantemente precisos.

A precisão, a prescrição
Fujo, persigo -
tento alcançar sem parear

E, no meio de tudo isso, quase aniquilo o coração
que pulsa perdido, destraído, sozinho
em brigas com as falhas dos miolos, dos tempos, das irrelevâncias indignáveis

Subaproveito, subsequencia, subpensamento
subterraneas imagens, rachaduras por onde escapam os medos

futuros, subjuntivos entrelaçados
passados, impperativos enfeitiçados

Muitos fins, começos,
- recomeços não, porque me repele a repetição.

Me repele a solidão.
Me repele a retenção.
Mas não me repele a cautelosa descrição, ou o cuidadoso cuidado com tanto.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Seja não

Exercite-se.
Coma fibras. Coma a cada três horas.
Não coma doces demais, gorduras demais.
Mas não perca grandes oportunidades.

Trabalhe.
Evolua.
Aprimore-se.
Relaxe.
Reinvente-se.
Descubra-se.
Concentre-se.
Seja criativo!
Adeque-se!
Seja gentil, polido
Seja sagaz,
Não seja ingênuo
Mas não seja rancoroso.

Seja humilde.
Não demonstre pobreza de espírito.
Mas não rebaixe-se.
Hidrate a pele. Proteja-a do sol.
Tonifique o rosto.
conserve o esmalte, as unhas bonitas.
retoque a maquiagem.
Mas não deixe que a vaidade prevalesça.

Zele pela sua vestimenta,
Zele pela sua morada,
Zele pelos seus bens materiais,
Zele pelo seu capital,
Zele pelos amigos,
Zele pela família,
Zele por seu amor.

Seja curioso,
Seja elegante
Seja simpático - mas seja comedido
Não seja extravagante.

Seja culto,
mas não seja chato.

Informe-se. Mas não se esqueça.
Habitue-se, sistemize-se.
E crie.

Durma bem. Não perca a hora. Aproveite o dia.

Se der tempo - ou se não der - viva.
E - se puder evitar ( o que é inevitávelmente impossível), não morra.

E não corte-se ao meio, em quatro, em oito...


(texto que tende ao infinito, amém).

domingo, 25 de março de 2012

O Puto

- Eu preciso de dinheiro! – disse ele para a sua namorada.
- Eu sei, amor, eu também me sinto assim, eu também quero a minha independência, minha casa, meu dinheiro, mas... infelizmente não há muito o que a gente possa fazer agora.
É o que acontece de vezes em vezes. Cursar uma faculdade e ver seus amigos crescendo na vida, ganhando um pouco aqui ou ali, mas enfim, ganhando uma certa independência. Mas ele, não. Eles, não. E isso o deixava frustrado, quando o sentimento lhe pegava com a guarda baixa. Não era o único a se sentir desse jeito. Sua namorada também sentia, assim como tantas outras pessoas, quando não em situações piores que as deles (que aqui não convém explicar, mas vale a citação).
- Sim, não há o que fazer. Será? – pensou ele.
Sua namorada sempre elevava o moral dele. Ele não se achava lá essas coisas, mas diziam que ele era bonito. Não era musculoso e nem magricela, era do tipo normal. Tinha uma vontade louca de amar as mulheres, mas nunca conseguiu se dar bem numa vida vadia. Aliás, não tinha lá muito sucesso com as mulheres, então, ficou feliz quando começou seu namoro, pois não teria mais de se preocupar com essas coisas de conquista do sexo oposto. Era um fracassado e sabia disso. Mas sua namorada o amava mesmo assim. Vai entender, a vida tem dessas coisas inexplicáveis.
Mas agora, a situação era diferente. Estava desesperado. Resolveu, então, unir o útil ao agradável. Jamais trairia seu amor, mas a situação estava crítica e, fizesse o que fizesse, ele saberia separar sentimentos que as mulheres não conseguem separar. Por exemplo, amor e sexo.
Resolveu se prostituir.
O que era complicado, veja bem. Não é um botãozinho que se liga ou desliga e então você é um profissional do sexo. Tem gente até que prefere as profisisonais que não são tão profissionais assim, se é que você me entende. E ele também nunca havia se utilizado desse serviço antes. Sabia que existiam sites de acompanhantes, anúncios online, e até mesmo fóruns onde se faziam análises de garotas, levando em consideração custo/benefício, lugar, a beleza da atendente, dando notas de zero a dez em quesitos tipo sexo oral, vaginal e anal (quando houvesse).
Agora, toda essa grandiosidade para um garoto de programa. Claro, ele nunca foi atrás disso, mas mesmo assim, não é preciso ser um deles para saber que o mercado do sexo é muito mais abrangente quando se tratam de garotas se prostituindo do que quando o mesmo acontece com homens. Talvez pelo fato de as mulheres ainda não se sentirem confortáveis com o fato de ter de contratar um profissional. Sabem como é, essa sociedade onde a mulher não pode nem ser ninfomaníaca em paz sem todo mundo apontar pra ela e a chamarem de vagabunda. Às vezes, até mesmo muitas vezes, parece que a mulher não tem nem o direito de sentir prazer. Penso em quantas vidas femininas foram desperdiçadas sem ao menos saberem o que é sexo além daquele cuja finalidade era unicamente a reprodução – e mesmo esses ainda não sendo lá muito prazerosos.
Apesar de todos os pesares, vale relembrar que ele estava desesperado. Não tão desesperado a ponto de se prostituir para satisfazer outros homens, seja isso ativamente ou passivamente. Claro que isso faria com que ele perdesse boa parte da fatia comercial de uma prostituição masculina. Aliás, se ele realmente quisesse, ele poderia estrelar pornografia homossexual. Todo homem quer ser ator de pornô hétero, e por isso o mercado homo masculino sente até falta de... “recursos humanos”. E pirocas.
Resolveu arriscar anúncios online e em jornais, todos muito discretos e baratos. Até comprou um celular simples – com o dinheiro que ainda recebia de seus pais, é claro – para servir exlusivamente a essa finalidade. Aliás, sempre desconfie de alguém que tenha muitos aparelhos de celular. Ele ou ela já tem um pré-requisito para admitir uma faceta oculta. Independente dos aparelhos, ele não tinha experiência no ramo e toda primeira vez geralmente é complicada, ainda mais em uma área tão estigmatizada como essa.
Soube separar o amor de sexo muito bem em seus primeiros encontros. Assim como se previnir para não transmitir nada de ruim para a sua namorada que, afinal de contas, ele a amava, acima de tudo! Mas também reparou que a maior parte de suas clientes eram senhoras, muitas vezes desgostosas de seus casamentos já corroídos com o passar dos tempos e que precisavam de uma aventura mais emocionante em suas vidas já sem graça de bodas de prata. Chegou até a ser questionado se ele fazia festas de despedidas de solteira, mas pensou que não era musculoso o suficiente e se sentiu ridículo vendo a si mesmo numa fantasia de bombeiro, entrando na casa e perguntando onde era o “fogo” que ele teria de “apagar”. Declinou o convite.
A vida, ah, a vida é uma caixinha de surpresas. Alguns meses depois de entrar para essa vida, nesse novo trabalho, já obtendo alguma independência aqui e ali, e sem que sua namorada notasse vez alguma – pelo menos não a ponto de questionar nada – ele recebeu uma ligação no mínimo curiosa. Era uma senhora, mais uma vez, querendo marcar programa com ele. Combinaram num famoso motel da cidade em plenas três horas da tarde. A parte curiosa, se é que você me pergunta, é que dessa vez ele pensava ter reconhecido a voz do outro lado da linha. Temeu por um instante que algo pudesse dar errado, mas resolveu ser profissional e encarar o trabalho qualquer que fosse.
Ele chegou 20min antes do combinado e ficou esperando no lobby do motel. Pela janela, viu um táxi se aproximando e esperou sair dele aquela que ele pensava ser possivelmente a sua companhia. Ela pagou o taxista, abriu a porta do carro, colocou as pernas para fora e então seu mundo caiu. Era sua sogra.
Ela entrou na recepção do motel e também não pôde acreditar no que vira. Ali, seu genro, prestes a lhe penetrar as carnes por onde saiu sua filha, que era namorada dele há tanto tempo! Resolveu não fazer cena e agiu com a mais perfeita normalidade, ele repetiu o gesto de discrição e então subiram para o quarto.
Tinha tanta coisa que passava pela cabeça dele, assim como na dela, imaginou ele. Resolveu seguir em frente, pelo menos para ver até onde aquilo iria. Receou que fosse uma cilada e que ela contaria para a filha assim que pudesse, e então o relacionamento dela e do genro estariam sem dúvida destruídos. Mas ela, ela não estava ali para isso.
Ao chegarem no quarto e fecharem a porta, meio que como alguém lança os termos de contrato que devem ser lidos antes de se adquirir algum produto, ela resolveu acalmá-lo, dizendo que o que acontecesse ali não sairia pela porta. Ela estava apenas precisando de afeto e excitação, coisas que seu marido já não tinha mais tempo e nem vontade para lhe dar. “Assim como todas as outras”, pensou ele. Aceitos os termos, fez o que tinha de fazer, deu-lha o carinho de que tanto precisava, ouviu suas lamúrias de mulher casada e largada pelo marido. Seu ouvido já estava acostumado ao papo e sua boca sabia exatamente o que fazer, seja para discursar o mesmo consolo de sempre, seja para fazer o sexo oral que sua namorada tanto gostava.
Dispensando comentar os momentos sórdidos entre o casal, depois de uma hora e meia (essa meia hora extra fora de brinde para sua querida sogra), se vestiram e foram embora, assim como fazem outros casais de mulheres casadas e garotos de programa que as secretárias do lobby estão acostumadas a ver vez ou outra. “Não deve ser a primeira vez que ela recorre a ajuda profissional”, concluiu ele.
Na verdade, ele não tinha ideia de como seria da próxima vez que se encontrasse com a sogra na casa dela. Saiu melhor que o esperado, ambos, ele e sogra, se utilizando do mais alto nível de dissimulação que eram dignos de entrarem na calçada da fama dos mentirosos. Uma mentira, sim, mas por uma boa causa.
Ele não queria continuar nessa vida pra sempre. Acho que ninguém quer quando se é um profissional do sexo. Mas até o fim desde relato, a sogra já se tornou cliente preferencial do genro e, com isso, tem ganhado descontos invejáveis a tantas outras senhoras da mesma situação que ela. “Minha filha merece o Homem que tem”, pensou.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Pensamento nº infinito


Resumo das conversas que tive com meus queridos e amados neste fim de semana:

- Depois que as mulheres adquiriram seus direitos, o mercado ficou mais acirrado, desumano, competitivo.

- Mulher é chata. Eu sinceramente admiro mulheres que tem a coragem de encarar outras mulheres.  Fica viajando metafisicamente em cima dos acontecimentos da vida. Quer enxergar mais longe, pensar mais no futuro, fazer planos a longo prazo - começando a agir para eles sempre imediatamente. Mulheres são todas potencialmente doidas, depressivas, hiperativas, ou os caralhaquatro porque simplesmente pensam demais. Isso também explica o enorme número de mulheres executivas competentes e que analisam mais minuciosamente todas as situações no mercado de trabalho.

- Na verdade, acho que todo mundo tem porcentagens variadas de homem e mulher dentro de si. Ninguém é 100% nem um nem o outro - só fisiológicamente. E, bom, pra uma mulher aguentar a outra, acho que a resposta é o feminino de uma complementar o masculino da outra e vice-versa. How about?

- Homem é prático, direto ao ponto. Pensa a curto prazo. Gosta de objetivos concretos. O que está bom, mantém - o que não está bom, sai. Sem trololó. Quando tem trololó, fica dificil de lidar.

- O mundo seria um lugar melhor se todos admitissem:
- que tem desejos, mas não necessariamente vão manifestá-los;
- que mentem;
- que também não admitem algumas coisas de vez enquando;
- que homem é psicado pelo tamanho do próprio pinto;
- que mulher também se masturba;

- Mulher se veste, quer cuidar do próprio corpo, não para ser "gostosa " para os homens - mas para elas mesmas. Homens gostam de mulheres. Há os que preferem as com mais peito, há os que preferem com mais barriga, há os que preferem as que gostam de matar zumbis, há os que preferem as misteriosas, e há os que preferem as mandonas.

- Casamento pode dar certo ou não. E não depende só de vontade. Depende do background de cada um também. Então, antes de gastar rios de dinheiro com uma festa em que os convidados vão se divertir mais do que você, faça um teste. É sem graça, não tem muito romance, mas é mais prático. E praticidade, meu bem, leva a uma alegria desconcertada impagável. (Isso não é um conselho, é um palpite. Apenas escrevi em forma de conselho para conseguir me expressar melhor).

- Religião/crença/fé saudável é aquela que permite que você se perdoe. Perdoe seus medos, suas vontades, seus infernos pessoais, e, acima de tudo, seus erros mais banais. É aquela crença que leve você a se aperfeiçoar, mas a saber usar seus erros mais para aprender do que para se condenar. E aquela que permite que você respeite suas próprias emoções É aquela que tira um pouco o peso do mundo das suas costas, porque te dá uma crença de que não são só as suas decisões e ações que fizeram as coisas darem tão certas ou tão erradas.

- Amor bacana (seja de amigo, de amante, de familiar) é aquele que permite você ser quem é a maior parte do tempo possível. Deixa você ser honesto de uma forma tão amplo que melhora até sua honestidade com você mesmo.

- Atividade física ajuda a gente a relaxar e ser um pouco menos neurótico. Porque permite que a gente gaste um pouco de energia com algo que não seja o cérebro.

- Quanto mais a gente estuda, tem experiência profissional, aprende a ser mais racional... Menos a gente fica criativo, viajado. E menos poético. E por isso some do www.sociedadedospoetastortos.blogspot.com.

- Peguei mania de organizar meus pensamentos em tópicos, sem unir um assunto ao outro. Isso é péssimo?


Se quem ler concordar, discordar, ou quiser debater... Pega uma cerveja, um chocolate, ou um plástico bolha e fica à vontade. S'il vous plait.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Eu choro

Eu choro.
Algum tolo um dia ousou dizer que homens não choram, mas quer saber?
Ele é um tolo.

Não choro as guerras
Não choro casamentos
Não choro momentos geralmente choráveis.

Eu choro à vida
E à morte.
O viver
E o morrer.

Pois é fato que a gente só pensa na morte quando ela bate na porta.
Quando algo ou alguém próximo à gente morre.
Familiares, amigos, bichos de estimação; todos morrem.
E quem não morre, segue.
Chorando.

Viver as pessoas vivem sem ao menos se dar conta
Aliás, viver muitas vezes é um saco
Mas quando eu percebo o quão grandioso é estar vivo,
e como existe tanto para se viver,
e tudo o que eu já fiz - que não é muita coisa, mas vá lá-,
Isso me faz chorar à vida.

Pois, só se vive uma vez.
O tempo que você passa lendo este texto, me desculpe, mas jamais vai voltar.
As pessoas matam o tempo, eu mato o tempo, quando achamos que não temos mais o que fazer.
Talvez não tenhamos, mas fato é que o tempo não volta.
Ou "O Tempo Não Para".

Quando eu me dou conta dessas coisas, eu fico embasbacado.
Meus olhos se enchem e eu entendo o tamanho do que é estar vivo.
Textos como "Filtro Solar" e a música "What a Wonderful World", por exemplo, me fazem chorar, ou ao menos lacrimejar.

Vivemos para morrer.
E enquanto isso, a morte, não chega, a gente segue.
Lendo. Rindo.Chorando. Vivendo.

O quanto puder.


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O texto me veio à cabeça - e às lágrimas - devido à iminência de... da... bom, da minha hamster ir pra grande Roda Celestial onde vão todos os hamsters depois de passarem um tempinho na Terra.