sábado, 1 de fevereiro de 2020

Tem dias que o suicídio bate a porta, sorri cortês, nos convida à conversa e nos fala do lado de lá, do sossego, do alívio, do mundo no lugar de novo. Tem dias que o suicídio flerta conosco e nós com ele, nesse jogo de gato e rato curioso. "Só estou um pouco cansado" repito o mantra a mim mesmo na esperança de consolar meu desalento, mas a bem da verdade já não tenho mais forças ou vejo lá muitos motivos pra seguir remando, posso ficar por aqui, seria confortável, um ótimo lugar para um ponto final.

Tem dias que a morte parece uma boa saída, que dói demais existir, ficar pensando nessas coisas o tempo inteiro, me sentir desajustado, quebrado, e eu não consigo fazer mais nada. Já não aguento mais sofrer com isso, eu só queria poder dormir um pouco mais, eu queria não ter esse medo estúpido, mas ele está aqui, me bate a porta e me trucida quando eu menos espero.

Consigo entender porque as pessoas usam drogas, para fugir desses pensamentos, para se sentirem bem, para esquecer das aflições, os demônios, mas eu tenho a impressão de que eles me seguiriam e seria ainda pior. O que fizeram comigo? O que eu deixei que fizessem? Estou tão cansado de sempre me fazer as mesmas perguntas e as respostas nunca serem suficientes. Preciso ser paciente? Tenho que esperar mais? Quanto mais? Talvez não valha a pena, talvez não haja luz no fim do túnel, talvez não exista qualquer luz afinal.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Valsa de sons brancos

Às vinte três horas e nove minutos, os conflitos e as pessoas desaparecem,  se tornam levianos demais, já não importa. Ninguém importa. Valsa-se sozinho como nunca para sabe lá deus onde. Um buraco? Um abismo? A janela do décimo andar com as redes cortadas? Pouco importa, segue-se na trilha do marasmo pelo cansaço, assim está muito bom. Não há mais nada que possa ser feito por outrem, só por mim. Eu, que fui sempre titânico, quase um colosso quebrado, sigo confuso, sem vontade, pé ante pé, em busca... De que? Dois para cá, dois para cá, dois para cá, dois para cá.

A neblina da relação entre tarde quente e a noite fria tem um som peculiar que já não ouço direito. Do rochedo fita a tempestade marinha enquanto sussurra e se pergunta "de que importa...?", engraçado que eu não saiba mais a resposta. Não sei mais a resposta. As palavras se amalgamam nesses tons de cinza, meio inexplicáveis e complexos, de onde se tentam interpretar pinceladas de maneira inútil, pois a torrente me invade e não posso evitá-la, só me deixo levar e sofro.

Me animam os pequenos combates, as glórias caladas que não faço questão de me valer, as conquistas íntimas. Não gosto de comando, de me vangloriar, não faz meu estilo, deixe isso às risíveis figuras dos generais, prefiro agir calado, não dar notícia de mim, pois não sou o poder da dominação, nem mesmo vanguarda dominada, minha força é coisa sutil, teimosa, de não se deixar levar pela maré dos ordinários, de me reconhecer e ainda assim manter em alguma medida os pés no chão. Os silfos sopram as condições, e eu os escuto atento, escolho as demandas que fazem sentido, as outras têm seus próprios heróis,  me encantam as pequenas batalhas. Do meu jeito e à minha vontade o mundo se dobra, até que me canse e tudo perca o sentido. Não me perder de vista na tormenta é ainda meu triunfo favorito.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Como estar sob uma chuva intensa e gelada, cada gota é uma farpa que lacera a carne, e ter que andar da casa pra escola numa quinta feira no início de julho. Mas não chove. O corpo não sangra, as outras pessoas simplesmente não sentem nada, e não há sequer vestígios de umidade na roupa. Em que medida isso é de fato? Há qualquer coisa que não explico, essa angústia que me espreita em cada curva ou esquina. O aperto que arrebata dessa maneira particular, corta as velas e se fica à deriva nesse mar de lama, alma como fel que aprendemos a esconder entre as dobras dos sorrisos e servir apenas a parte doce da ambrosia podre.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Todo dia me pergunto quando vou ficar bem. Não é como se eu não tivesse momentos melhores, acho que tive sim dias mais tranquilos, e recentemente alguns menos tristes, mas sinto como se esse marasmo esquisito fosse durar pra sempre. Quando vou ficar bem? Eu já não sei exatamente onde fica o buraco, se é psíquico, químico, social? Não sei, mas as coisas tem ardido e me cansado mais do que o de costume. Dormir tem sido meu escape favorito, meu deleite, e vou me sentindo tanto mais descolado desse mundo que já nem dos remédios preciso mais, apenas deito, meu corpo não está cansado, e minha mente possivelmente também não, mas fecho os olhos e me deixo levar pra algum lugar, qualquer lugar, dentro de mim. Me refugio na minha concha, e aos poucos vou sentindo que ela não me comporta mais, não me esconde mais do mundo e o mundo também não é capaz de me comportar e o que seria? Quando vou voltar a me interessar de fato por alguma coisa? Já não são mais os remédios, acho que sou eu, e talvez essa impaciência toda seja contraprodutiva, mas é só o que tenho.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Prostrado na plataforma aguardava angustiado o primeiro trem, junto aos outros tantos passageiros que olhavam seus relógios aflitos por seu atraso. Não lembrava exatamente o destino, mas tinha a sensação de que ao embarcar a ansiedade sumiria, com alguma sorte ainda teria um acento livre e poderia finalmente fechar os olhos por alguns instantes. Precisava ir, sabia disso como sabia que dali poucas horas a aurora resplandeceria no céu, mas não sabia para onde, tinha que andar, correr, pois sentia-se sufocado, até que o corpo encontrasse alguma pequena morte que desse sossego a desarmonia que levava no peito. Não importava para onde, mas o desassossego incomodava e ainda assim andar de mãos dadas com ele e estar sob sua tutela era horrível. Tinha que pensar, entender, sentir todo aquele fluxo turvo, caudaloso, depurar e encontrar no fundo de si a si mesmo. Sabia que de outro modo seria tudo somente ilusão, que o demônio atormentador só descansaria para retornar ainda mais irado quando tudo fosse silêncio.

Não podia ir, nem ficar.

O trem chegou e logo partiu.